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Parte 3: Onboarding

Cléber

![montanhas.jpg](/files/68) Querido diário, finalmente consegui um tempo, antes de dormir, para escrever sobre como foi o dia. Hoje foi O Dia Primeiro do Onboarding da Via Bilizemo. E foi um dia muito louco. Começou nA Hora Primeira (cinco da manhã), lá nA Nova Sede Meridional. Os quatorze Novatos foram guiados por quatro Facilitadores até o subsolo, onde foi-nos apresentada A História Completa da Via por meio de um enorme corredor de concreto. Todos já tinham os cabelos cortados segundo O Corte padrão dA Via, exceto uma moça com cabelos muito compridos e sedosos. O Facilitador Magenta chegou a pegar uma mecha e comentar: “mas que fios maravilhosos, hein?”. Já no início do “tour” no enorme corredor, apontando para um enorme quadro de Viktḧr (emoldurado em um material que parecia um entalhe artesanal muito cuidadoso no mais puro marfim), o Facilitador Ciano perguntou se sabíamos quem era. “É o Viktḧr!”, algumas vozes disseram. “Muito bem, Novato”, ele respondeu, surpreendentemente tendo conseguido identificar quem deu a resposta primeiro e acenando à pessoa mui brevemente, com a cabeça. O jovem ficou todo feliz com a aprovação do Facilitador. Os outros jovens pareciam empolgados. Dando alguns passos mais adiante, o Facilitador Ciano aponta para outro enorme quadro mostrando um homem muito velho, sentado numa cadeira de madeira e com o cotovelo apoiado numa “secretária” daqueles modelos bem antigos, sobre a qual repousava um telefone preto daqueles bem “primitivos”. Eu chutaria que aquele quadro foi pintado no começo do século passado. “E este, quem é?”. Nos entreolhamos por alguns segundos, até que alguém tentou um chute: “o pai de Viktḧr?”. O Facilitador sorriu e nos disse, como se fora algo perfeitamente normal: “ora, esse é O próprio Viktḧr!”, e prosseguiu até o próximo quadro, enquanto ainda fitávamos, meio confusos, o quadro do “Viktḧr antigo”. O jovem que antes havia sido “validado” foi o que menos demorou-se entre os embasbacados e logo prosseguiu a seguir o Facilitador Ciano. Nos recompomos e vimos o próximo quadro, que parecia mais antigo ainda. Novamente, foi-nos perguntado quem seria o homem retratado. “Este homem é o Viktḧr!”, adiantei-me, ganhando também minha breve validação. O outro jovem, que foi surpreendido por mim com a resposta quase saindo da boca, ficou evidentemente frustrado, e dessa vez parecia fazer ainda mais questão de ser o primeiro a seguir o Facilitador. “Observem esse corredor. Vocês conseguem vislumbrar seu fim?” Olhamos para o mesmo, tentando ver algo na escuridão, ao longe, sem muito sucesso. O corredor era realmente longo. “Aquele não é o fim. Aquele… é o começo! O fim… o fim… éramos nós. Agora, o fim são vocês!!!” Uma jovem levou a mão ao peito, em expressão lânguida e emocionada. Enquanto refletíamos sobre o que foi dito, o Facilitador Ciano juntou-se a nós, colocando a mão direita sobre o ombro de outro jovem e dizendo, com olhar profundo e claramente emocionado: “O começo é agora. Não deixem A Via terminar antes de implementarmos A Visão.” E logo após isso fomos engolidos pela escuridão total. ![Quadro de um velho](/files/69) Acordei deitado em um enorme gramado usando uma bata branca. Ao meu redor, pude perceber os outros jovens, alguns acordando, outros ainda dormindo. Foi bem estranho. No horizonte, uma visão absolutamente maravilhosa da mais pura natureza. Todavia, mal tive tempo de por os pensamentos em ordem, pois logo ouvi terríveis gritos desesperados: era a moça dos “fios maravilhosos” dando atrapalhados tapas na própria cabeça, pois sua antes linda cabeleira estava cheia de baratas, aranhas e outros bichos medonhos. Os cadarços de seus sapatos estavam amarrados uns nos outros, o que parecia dificultar ainda mais sua vida. Ela rolou pelo chão, bateu com a cabeça numa árvore e esfregou os cabelos na grama por alguns minutos, num espetáculo grotesco, acompanhado de gritos de horror (alguns vindos dos outros jovens, inclusive), até que, já no limite de suas energias, foi-lhe entregue pela Facilitadora Amarela (que tinha um semblante muito severo) uma máquina de cortar cabelo, sem pente algum. A Facilitadora segurava a máquina numa postura curiosa. “Cerimonial”, eu diria. A jovem começou a raspar suas madeixas, em lágrimas, toda trêmula e descuidada. A cena toda foi bem chocante. No final, alguns funcionários a levaram até uma van branca, que saiu portões afora, pelos quais a jovem foi e não voltou mais. Agora éramos treze Novatos. ----- Nosso choque acabou abafado pela mais completa serenidade demonstrada pelos Facilitadores, que nos guiaram, em seguida, a um grande salão de madeira, cujo interior aparentava ser um cubo perfeito, no qual assistimos a uma breve palestra de boas-vindas, que pinçou alguns pontos dA Cultura, especialmente o “vestir a camisa” e nos propôs um voto de silêncio que duraria até a manhã do dia seguinte. No refeitório, comemos em silêncio e em silêncio vimos o sol se por. Não havia muito mais o que ser visto, já que nossos celulares haviam sido todos “afastados momentaneamente” de nós, visando o nosso bem. Na minha cabeça, as coisas relacionadas à moça das madeixas, agora careca, aos poucos começaram a tomar contornos diferentes. O silêncio, ao contrário do que seria de se esperar, ajudava. Como seria a vida dela, agora? Oras, talvez melhor! A Via acabou ajudando-a a sair da zona de conforto. Ela processaria a empresa? Talvez. Ou talvez ela aproveitasse para atingir novos patamares em sua vida e, no fim das contas, fosse grata. Era bom ver as coisas de um jeito diferente do que os perdedores veriam. Isso me fazia sentir um Vencedor. E é bom sentir-se Vencedor. Hashtag: **gratidão**. ----- Na parede externa do Salão Cúbico, uma enorme barra de progresso mostrava o quanto dO Onboarding havíamos experimentado até aquele momento: 10%. ----- E conforme a noite ia caindo, fui sentindo minha mente ser inundada pelo vazio. Um enorme e relaxante vazio. Agora, religião, família, política, futebol e ricas características únicas pessoais iam perdendo a cor, depois a forma e, no fim, iam simplesmente sumindo, levadas pelo rio do silêncio e da escuridão. Tomado de um ímpeto inexplicável, enérgico mas, ainda assim, sereno, disse em meus pensamentos: “Olá, trevas, minha velha amiga…” Então eu olhei em volta e vi as pessoas dizendo sem falar. E ouvindo sem escutar. E eu escrevi canções. Canções que vozes nunca compartilhariam, pois ninguém ousaria perturbar… o som… do silêncio…

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