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Parte 2

Cléber

![Caneta tinteiro no papel](/files/66) Cara tia Judy, é com alegria que informo que obtive retumbante sucesso no processo seletivo para adentrar os portões dA Via Bilizemo! De pronto digo: jamais teria conseguido sem sua ajuda. Inicialmente, admito, estranhei profundamente seus conselhos, mas por fim percebi que todos foram essenciais ao meu sucesso. Durante a avaliação online de perfil, procurei esconder meu lado Dominante e foquei nesse tal de Estável. Evitei falar sobre objetivos, autoconfiança e autoridade enquanto forcei a barra ao máximo em falar sobre família e amigos, sobre ser um bom ouvinte e sobre perguntar mais do que mandar. O primeiro contato com a equipe de Gestão de Pessoas depois disso foi muito bom. Já na entrevista online, chegaram a comentar sobre minha idade “avançada”. Estranhei um bocado, pois 33 anos não me parece exatamente um sinal de velhice. Talvez o choque tenha me ajudado a decidir confiar nos seus conselhos e dizer que eu tinha um retardo e que minha idade mental era de 22 anos. É meio estranho, mas eles pareceram extremamente satisfeitos e fiquei aliviado em perceber que o custo de comprar uma “cadeira gamer” e encher a estante atrás de mim de bonecos infantis dos Cavaleiros do Zodíaco (que os vendedores de brinquedos insistiram não ser “brinquedos”, estranhamente) acabou se pagando. Chegando, finalmente, o dia da entrevista ao vivo, fiz um tour pelA Nova Sede Meridional dA Via Bilizemo e fiquei completamente embasbacado. A empresa deve lucrar muito, mesmo, pois acredito que nem todo aquele dinheiro economizado ao manter na empresa somente os Colaboradores realmente motivados seja suficiente para pagar tamanhos luxo e conforto. Parecia um quarto enorme de um adolescente bem rico e cheio de caprichos. Não me admira que os processos seletivos geralmente durem cerca de seis anos. “Contrate devagar, demita rápido”, é o que dizem. E parece que levam isso bem a sério. E é incrível que todo esse luxo já tenha se tornado tão habitual que ninguém mais parece se importar com os enormes pufes, a mesa de ping-pong, os arcades, a piscina de bolinhas, a grama sintética, as snacks grátis, as arminhas Nerf, as fontes de chocolate, as salas de massagem, os prostitutos e prostitutas cultuais, a oficina de maquiagem, a enorme estátua de Moloque sobre a pira cerimonial, a mesa de sinuca, a piscina aquecida, o autorama, a sala de Lego, o mini-cinema, o anfiteatro, as diversas salas temáticas, o Museu de Cera dos Maiores CEOs da História, a sala de massa de modelar, o curso de olaria, o zoológico virtual, a salinha íntima, o espaço pet, a papelaria (eles tem cinco sessões de prateleiras só para os mais variados tipos de post-its), a sala de realidade virtual, o fumódromo, a adega, a sala de espelhos, o laboratório de análises químicas, a roda-gigante, o jardim botânico, a sala dos video-games ou o que for. A entrevista foi (segundo me disseram, “em horário excepcional”) às 21:30, e ainda assim havia bastante gente por lá, mas todos com os olhos vidrados nas telas dos seus laptops. Não vi ninguém usufruindo dos “quitutes”… E por pouco não perco a entrevista! Pedi licença para ir ao banheiro e meio que me perdi. Depois de meia hora sentado numa grande e confortável sala com grandes sofás, ambiente climatizado e música ambiente, uma pessoa me avisou que eu ainda nem havia saído do banheiro! Vendo toda essa fartura eu entendi por que o salário oferecido é abaixo da média do mercado e nem achei muito assustador terem me perguntado se eu tinha algo contra fazer horas extras de vez em quando — pelo menos me garantiram que não era uma regra, mas acontecia só de vez em quando, mesmo. Como a maioria das paredes era transparente, consegui reparar algo curioso: me pareceu que todo mundo que trabalha realmente pondo a mão na massa por lá tem, de fato, vinte e poucos anos. Que coincidência interessante… Durante a entrevista, fiz como me aconselhou: demonstrei muito entusiasmo pela empresa, disse que o modelo de negócios era extremamente disruptivo e que eu era uma pessoa cheia de energia, vontade de vestir a camisa da empresa e entregar resultados sem reclamar de nada. Enfatizei esse segundo ponto reagindo com um certo desconforto à ideia, implícita em algumas perguntas, de qualquer tipo de demonstração de insatisfação, como se achar ruim qualquer coisa proposta pela empresa fosse uma coisa muito vil, muito baixa e indigna. E deu certo! Há três dias me avisaram que fui aprovado e ontem terminei, com muito esforço, de rubricar todas as cento e vinte páginas do N.D.A. e enviar o original mais cópia autenticada. É curioso como as coisas andam depressa no finalzinho: você passa seis longos anos “sofrendo” no processo seletivo, mas na hora de assinar os documentos você tem menos de um dia. Agora há pouco eu estava terminando de preencher o formulário com meus dados. Dessa vez foram apenas quarenta campos e, para uma empresa que inovou tanto no mercado de tecnologia, é até estranho fazer isso numa planilha do Google Docs. Cheguei a conversar com alguns funcionários dA Via que eu já conhecia e perguntei sobre esse tal de onboarding que duraria três dias. Fiquei curioso para saber que tipo de coisa, afinal, nos seria repassada durante três dias inteirinhos. Todos me responderam com muito entusiasmo mas sem muita informação. “O onboarding é tremendo” foi, basicamente, a resposta que todos deram. Engraçado. Certamente é pura coincidência, mas parecia até algo treinado. Mas ok. Minha entrada acabou ficando marcada para daqui a quarenta e cinco dias, pois é quando o próximo processo de onboarding vai acontecer. Fiquei meio desesperado, pois é uma espera e tanto para quem está sem emprego. Mas não falei nada com medo de não parecer o “Estável”, conforme me instruiu. Só no finalzinho, saindo, eu cheguei a comentar que estava com muito pouco dinheiro, justamente com a moça do RH que postou, fazia pouco tempo, sobre a moça da “comunidade” que não tinha um pé, irmã de doze, e que havia chegado lá toda ensopada às 23:49, desesperada, porque havia tomado chuva porque estava sem dinheiro para o ônibus, logo teve que sair de casa três dias antes e caminhar sem parar até chegar na empresa porque aquela era a única oportunidade que ela teria de ter dinheiro para comprar um band-aid para ajudar a sarar a ferida no joelho do irmão que sonhava em ser jogador de futebol. Segundo o relato que li no LinkedIn, a moça do RH lhe deu um abraço, um chocolate quente, uma manta térmica, uma muda de roupa, sapatos novos (e uma prótese futurística criada por Elon Musk), um curso de etiqueta francesa, uma bicicleta elétrica, um ingresso para o último show de Sandy & Júnior e, claro, o emprego. Talvez a bondade dela tenha sido toda gasta com essa outra menina, porque para mim ela só disse “o que A Via espera é que seus colaboradores consigam se virar em qualquer adversidade. Autonomia, afinal, é um artefato importantíssimo da nossa A Cultura”. Bem, ainda tem um restinho da minha poupança de emergência. Vou ter que passar a pão e água, mas tudo bem: já é um exercício da minha autonomia, certo? É bom já começar a “vestir a camisa”. Seja como for, estou feliz que entrei. Até já fiz O Corte no meu cabelo! Abraço para o tio Giorgi.

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