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A startup que ficou chata

Cléber

![Startup 01](/files/97) *22/02/2017* É bem verdade que “startup” nem sempre significa “ambiente legal”. Inclusive, para os “macacos velhos” como eu e tantos outros, que torcem o nariz para aquelas descrições de vaga de emprego que usam o adjetivo “apaixonados” ou que morrem um pouquinho mais em seus corações quando alguém chama os desenvolvedores de “magos da tecnologia” ou “jedis”, a propensão a associar “startups” a “um monte de bullshitagem” tende a ser grande. “Temos snacks!” é bradado por aí, como se eu, como funcionário (fun-ci-o-ná-ri-o!) alguma vez na vida tivesse suspirado, sob a pilha dos boletos a pagar, dizendo “ah! Se no meu trabalho eu fosse servido de uns snacks, toda essa dor de cabeça valeria a pena!”. A vida adulta, afinal, se caracteriza por pagar boletos e tentar emagrecer. O que eu preciso é de salário para pagar meus boletos, não “snacks” que me impedem de emagrecer! Snacks, frutas, arcade ou mesa de ping-pong podem ser um sinal de uma atitude muito bacana por parte da empresa, que seria uma relação de confiança e companheirismo, ou pode ser simplesmente uma isca para atrair jovens incautos. Ou, ainda, pode ser um resquício de um passado uma vez brilhante mas não mais. E, não, eu não estou falando de alguma startup onde eu já tenha trabalhado. Muito pelo contrário! A ideia é justamente falar sobre startups que eu fugi. E quero falar especificamente sobre uma determinada “startápi” na qual, uma vez, participei de um extenso processo seletivo. ## O Processo Long story short: eles haviam entrevistado mais de 200 candidatos e só havia sobrado eu e outro cara (que nunca cheguei a conhecer). Começa por aí: mais de DUZENTOS candidatos e seria possível que ninguém, ninguém, NINGUÉM fosse capaz de preencher a vaga dos caras? Pode isso? Para mim isso já é um mau cheiro… ![escada-de-curriculos.jpg](/files/98) Mas okay. Quando me contactaram eu não sabia de nada disso. Um belo dia um cara dessa tal de K2 (uma empresa que terceiriza RH) me liga perguntando se eu tenho interesse numa vaga assim, assim e assado. Eu respondo que não domino todas as tecnologias citadas mas, se isso não fosse um problema, eu teria interesse, sim. Eu não estava assim muito satisfeito com meu emprego da época, então, que mal faria, certo? Quando me falam “startup”, não sei bem porque, eu sempre penso em uma salinha apertada e desorganizada com 5 pessoas (cujos job descriptions no momento ocupam pelo menos uma página inteira de A4) trabalhando extremamente focadas em algum produto cuja descrição é um grande “massavéi”, mas cujo sucesso não é garantido. Ledo engano. O “escritório” da tal startup era imenso, gigante e com um ar-condicionado absurdamente eficiente. Tudo ao redor inspirava riqueza e fartura. Os espaços eram grandes, a recepção era maior do que aquele escritório apertado com 5 pessoas da minha imaginação, que mencionei acima, os móveis eram todos “bacanas”, as fechaduras eram todas eletrônicas… E, sim, eu fiquei impressionado e empolgado. No fim das contas, eu quis trabalhar ali quase que só por causa do ar-condicionado e para poder sair do emprego em que estava. Nesse primeiro dia eu fiz uma prova, na qual fui muito bem. Eram duas ou três perguntas sobre cada uma de umas dez tecnologias. E fui embora. Depois voltei lá para conversar com o cara do RH e a chefe dos programadores (eu realmente não lembro o nome correto do cargo dela). Eles atrasaram-se uns 20 minutos, mas foi uma conversa bem legal. E fui embora. Depois voltei lá para uma espécie de “sabatina” com toda a equipe de desenvolvedores e mais um cara que era um tipo de gerente de produto ou algo assim. A essas alturas eu já estava começando a ficar de saco cheio com o processo. E essa etapa é, sim, bizarra. A equipe tinha quase uma dúzia de desenvolvedores. Era realmente necessário incluir todos eles no processo seletivo? De qualquer forma, a “sabatina” (que também começou com uns 20 minutos de atraso) fluiu muito bem. E fui embora. Depois voltei lá para falar com o CEO/Founder da empresa. E a conversa (que começou com uns 10 minutos de atraso) fluiu bem. E fui embora. E daí, por não querer me pagar R$ 1.000 a mais por mês, que já era um pouco menos do que eu havia pedido inicialmente de salário, acabou que não consegui entrar nessa startup curitibana bizarra. ## Minhas impressões No geral, me pareceu que tudo era “over the top”: tudo tinha um “glamour” exagerado. As pessoas de lá pareciam que realmente acreditavam que eram especiais e que a empresa deles era algo único, que alguém poderia dar o braço direito para entrar de tão maravilhosa que a empresa era. Era uma startup! Era “legalzona”! Tinha Nerfs! Tinha snacks! Mas o processo seletivo mais longo do que o necessário e bem bizarro serviu para indicar que, no fundo dos corações daqueles funcionários e do CEO, chamar um forasteiro para trabalhar naquele paraíso era arriscar diminuir a, digamos, “maravilhosidade” do local. Impressões são apenas impressões, claro, mas elas tornam-se um indicativo de um fato quando várias outras pessoas acabam compartilhando impressões iguais. É mais ou menos como a história de que os Ford Escort “europeus” (1995?) campotam com facilidade. Um dia um cara me disse isso e eu simplesmente deixei registrado que “um cara me disse isso”. Depois outra pessoa completamente não-relacionada me conta que um parente capotou na estrada com um desses e quase morreu com um galho atravessando o para-brisas. Tempos depois, outra história parecida. Não pode ser mera coincidência! No caso dessa startup específica, de quando em quando eu ouço sobre alguém que teve maior ou menor contato e que teve uma impressão parecida (geralmente colocada com as palavras “achei os caras meio babacas”, não necessariamente com um “textão” como esse). ![Escort europeu](/files/100) ↑ *Capota, sim, que eu sei…* ## Como não deixar isso acontecer na sua empresa E agora vem a parte importante. Afinal, apenas falar dos problemas e não discutir soluções faria deste artigo um mero “rant” (reclamação/murmúrio). ### 1- Ambiente legal, não “palhaçada”. Vou falar como desenvolvedor, citando outro desenvolvedor que me citou uma frase de twitter de outro desenvolvedor, que não lembro quem era: eu trocaria, com prazer, a mesa de ping-pong por uma sala pequena e com porta. Desenvolvedores precisam de silêncio e concentração para poderem trabalhar direito. Então não nos importa nem um pouco se você, contratante, nos dá snacks ou tem mesas de ping-pong, sinuca ou pebolim. É até irritante, na verdade, eu não ganhar o que preciso e você me oferecer o que eu nem faço questão. Um “ambiente legal” é um lugar/cultura, por exemplo, que não fica enchendo o saco com o fato de eu trabalhar de bermuda e chinelo ou fazer meu horário do jeito que eu achar melhor (dentro de limites aceitáveis, claro, se for o caso). (Ah, outra coisa babaca dessa startup: eu perguntei se podia vir trabalhar de chinelo. A resposta foi um “pode” que significava “não pode”. Foi um “pode” porque “a empresa é legalzona”, mas “não pode” porque “a empresa é maravilhosamente magnífica-além-da-conta e todos somos riquinhos que se importam muito com a aparência”. Chegaram a me citar a hipótese de eu me encontrar com um cliente. Eu, programador. No ambiente de trabalho. Uhum…) Ambiente legal é onde ninguém ficará me dando “carteiradas” quando eu sugerir algo e onde não preciso ficar preenchendo formulários em papel. Onde não ficamos fazendo as coisas porque há uma hierarquia com 5 níveis que impede que se diferencie trabalho de baboseiras-nonsense-que-um-só-faz-porque-o-outro-pediu (ah, referiram-se ao CEO como “C-level”. Olha essa…). Para haver um ambiente legal, não é necessária uma máquina de karaokê ou happy hours ou cervejada no fim da semana. ### 2- É só mais uma empresa ![SpaceX launch](/files/101) É legal rolar um certo orgulho do lugar em que trabalha ou do projeto legal em que se está trabalhando. Mas tudo tem limites. Embutir na cultura da empresa a noção de que ela é especial, que é “disruptiva” além de qualquer outra, que há de mudar o mundo e que só “pessoas acima da média” trabalham lá e criar um muro de fantasias que separa a sua empresa (e a equipe) do mundo real. A SpaceX e a Tesla, por exemplo, são só empresas. Elas criam produtos e tecnologias incríveis mas, no fim das contas, tem os seus caciques, o RH, a tia do café, os estagiários, os competentes, os que só enganam, etc, etc. Você costuma ver só o topo do iceberg, mas abaixo disso há uma estrutura organizacional facilmente reconhecível, que você vê e diz “ah, é uma empresa. Já trabalhei num lugar assim”. A história da super-empresa acaba sendo só um conto para enfeitiçar jovens ingênuos e mentes fracas. Quem é “macaco velho” já está vacinado contra isso e, quando ouve essas conversas, fica até “meio cabrero” (“com um pé atrás”, “um tanto incrédulo”). No fim das contas, os boletos continuam chegando na casa do “especialista em satisfação da pessoa que é o nosso cliente” e histórias de super-empresa-que-é-a-melhor-do-mundo logo irão desvanecer quando a grana para pagá-los ficar curta. Ou quando ele tiver que desmarcar um compromisso com a família porque os colegas olharão com caras feias para ele se ele cometer o pecado de sair no horário justo no dia em que todos, empolgados que estão com O Projeto Super-Disruptivo, nem se deram conta da hora e pretendem ficar pelo menos mais duas horas no escritório e pedir uma pizza e tirar foto e postar no “Insta” com hashtag #go-[nome-da-empresa] e #hardwork. ### 3- Nós velhos somos céticos (Como você já deve ter percebido.) ![Old muppets](/files/102) Startups, no fim das contas, são formas de caras estupidamente ricos aproveitarem-se da gana empreendedora de jovens ricos ou meio-ricos e conseguirem, por meio destes, ficar ainda mais estupidamente ricos, deixando tais jovens também mais ricos (guardadas as devidas proporções) e mantendo o teu salário num patamar razoável. Não digo que não haja projetos legais. Há diversas iniciativas que nós, velhos, amamos fazer parte. Nem que “os ricos são maus”, porque isso é uma ideia estúpida. Mas na nossa mente velha há um “watchdog” muito bem ajustado que nos impede de deslizar a ladeira da empolgação e nos lembra, constantemente, que boa parte do nosso trabalho acaba servindo mesmo é para deixar o chefe mais rico e que não somos casados com ele. Alguns de nós almejam cargos mais “elevados” e sabemos que podemos chegar lá. Outros já tem como perspectiva não mudar muito o que já fazem. Em ambos os casos, no fim do dia, por mais que o CEO seja o cara mais legal do mundo, por mais que almocemos juntos contando piadas, dando risada e discutindo animadamente o futuro da empresa, sejamos adultos honestos e sempre conscientes de que minha carreira profissional e o futuro da sua empresa são coisas distintas, atualmente “enlaçadas” — mas não para sempre. Não que isso deva servir para gerar “um climão estranho”. Vamos continuar contando piadas, dando risada e discutindo animadamente o futuro da empresa. Mas é sempre bom que todos estejam cientes da realidade como ela é. ### 4- Comece pelo começo Mesa de ping-pong, frutas, snacks e até ginástica laboral são coisas legais, sim. De fato, são bem legais. Onde já se pensou, há uns 30 anos, que coisas assim seriam oferecidas dentro do “sóbrio-e-sério” ambiente de trabalho? Mas comece pelo começo. Primeiro os meus boletos precisam ser pagos. Depois, quero minha família contente com minha jornada de trabalho. Depois que o fora-do-escritório estiver bem resolvido, aí é hora de ir melhorando o dentro-do-escritório. ### 5- A equipe não é assim tão especial ![birrenta.jpg](/files/103) Pare de pensar que quem esteve na empresa desde que ela surgiu é mais especial do que quem esteve fora dela. As pessoas da equipe “velha” são iguais às pessoas de fora. A diferença é meramente que os membros desta equipe estavam “dentro”. E as outras estavam fora. Ponto. Não tem como levar a sério a máxima “contrate gente melhor do que você” se você não consegue colocar na sua cabeça que as pessoas que não trabalham na sua “super-empresa” são, sim, melhores do que você! Valorizar a equipe e até ter orgulho dela é ótimo. Mas, como eu já disse, para tudo há limites. Orgulho excessivo logo torna-se um impedimento para contratação e você acabará em alguma situação ridícula como tentar contratar um programador entre 200 candidatos e acabar não ficando com nenhum. ### 6- Todos detestam open spaces ![fabricao.jpg](/files/104) ↑ *Na China, “fabricão”, no Brasil “startup no galpão”.* Antes de alugar aquela antiga fábrica têxtil com 10 alqueires de chão e teto de concreto, saiba que além de baixar a produtividade geral e facilitar a contaminação da equipe com doenças contagiosas, você logo deixará as pessoas descontentes com o barulho e interrupções (incluindo visuais) constantes. Não decida nada baseado no “é legal” ou “é a moda” (apesar de que, geralmente, o fator determinante é o “é mais barato”…). Corra atrás de estudos a respeito dessa onda de “open space”. Há dezenas deles disponíveis facilmente e novos estão sempre chegando, cada vez com metodologias melhores. E, caso seja cético quanto ao que eu disse e já tenha uma startup funcionando num “open space”, repare em quantas pessoas usam aqueles fones de ouvido intra-auriculares ou “gigantões-que-abafam-os-ruídos-externos”. Sérião mesmo que você acha que tantas pessoas assim realmente preferem trabalhar ouvindo música? ### 7- Vá devagar na ostentação ![mesada.jpg](/files/105) Você está à busca de grandes talentos e até consegue encontrá-los, mas quando eles chegam até sua empresa você ou faz como essa empresa que citei e trata-o com altíssimo nível de escancarada desconfiança ou faz como essa empresa que citei e exibe uma riqueza deslumbrante que, no fim das contas, pode fazê-lo pensar: como é que eu vou ajudar esta empresa, se ela parece não precisar de ajuda? Muitos grandes talentos tem prazer em ajudar a empresa a crescer e alcançar seus objetivos. Se a imagem que sua empresa passa é a de que já alcançou todos os objetivos que uma empresa almeja, você acaba diminuindo suas chances de conseguir contratar grandes talentos. Ou, pelo menos, este perfil mais “construtor” ao qual me refiro. ## Resumão Pés no chão, sempre! É bom sonhar alto, é bom ter uma cultura legal, é bom valorizar a equipe e é bom ter snacks. Fato. Mas mantenha os pés no chão. Inclusive, eu até recomendo que você procure esse tipo de cara bem cético, bem “desprovido de firulas” para ajudar você a entender os limites do que é bom e do que é bizarro ou ridículo. Como aquele amigo que não deixou você fazer aquele topete patético com luzes ou comprar aquela calça verde limão apertada. Você não precisa ouvir sempre o cético, pois nem sempre ele tem razão. Mas eu digo que é bom tê-lo sempre por perto. ----- Ou não, claro. Só tô dando minha opinião…

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