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Parte 1

Cléber

![Capa Ricardo Amorim](/files/48) * Date: 2020-01-04 É importante admitir que, apesar da aversão do momento, o admiro. Ricardo Amorim, afinal, é extremamente esforçado. Não sei dizer se ele faz isso sozinho ou se tem uma equipe, mas é de se admirar: ele posta algo várias vezes ao dia em várias redes sociais. E é geralmente algo interessante, algumas vezes bem relevante. ![Ricardo Amorim description](/files/49) *Em 04/01/2020 — Quase o equivalente em seguidores a 1% do Brasil. Isso é muita coisa.* E é curioso que eu sequer o sigo. O que ocorre é que sempre tem alguém que “curte” algo que ele publicou e, pimba!, lá está a face do senhor Ricardo na minha timeline todo dia. Todo. Santo. Dia. Sem exceção. E, repito: eu nem sequer o sigo. Assustador, não? É quase como se sua presença me perseguisse. ----- Acordo e, ainda bem cedo, olho pela janela e o vejo. No caminho para o trabalho, parado no sinaleiro, olho para o lado e vejo quem? Ricardo Amorim no carro ao lado. Ele nem me vê, claro. Só está lá. No almoço, reparo alguém de terno lá na última mesa do restaurante. É ele. No meio da tarde, olho pra tela do meu colega e vejo que ele está vendo um vídeo do Ricardo Amorim. Na volta para casa descubro que O MOTORISTA DO APLICATIVO É O PRÓPRIO RICARDO AMORIM!!! Desço do carro e saio correndo. Ele deve achar que eu sou maluco. ----- Não à toa o sábio Salomão já dava essa preciosa dica tem mais de 2500 anos: ``` Não ponhas muito os pés na casa do teu próximo; para que se não enfade de ti, e passe a te odiar. Provérbios 25:17 ``` ## Os problemas ### 1- Economista ou açougueiro Como disse antes, eu realmente admiro esse esforço por ter seu lugar nesse mar infindável de informação e gente em que vivemos. É uma estratégia que, definitivamente, tem dado certo. Há milhares ou milhões de pessoas batalhando para conseguir tanta atenção e, no entanto, apenas um punhado consegue obter tais resultados. Para todos os efeitos práticos, está absolutamente de parabéns. Mas existe o problema do “oi, sou eu de novo!”. E é curioso que o que faz com que alguém tenha tantos seguidores é um efeito proveniente das mentes mais débeis: a maioria das pessoas não presta atenção em quase nada. Eu poderia apostar que pelo menos metade dos “jóinhas” que as publicações do senhor Ricardo Amorim ganham vem de gente que nunca reparou que são provenientes dele. Ele é economista, empreendedor e apresentador de TV, mas para essas pessoas, ele bem poderia ser açougueiro: não faria diferença alguma. E assim caímos no segundo ponto, que é a impessoalidade da automatização. ### 2- O robô de postar Se você for pesquisar as “receitas de sucesso na internet” baseadas em geração de conteúdo, verá que um padrão se repete: seja nas redes sociais, seja num blog que você queira “fazer bombar”, a regra é a mesma: poste todo dia, várias vezes ao dia se possível, incessantemente, por muito tempo. E enquanto no mundo dos blogs isso pode ser até bem interessante, pois a maioria das visitas virá de buscadores, nas redes sociais isso cria um efeito de “pulverização do charme”. “Cada um dá o que tem” e tem gente que tem muito a oferecer. Mas, ainda assim, para todos há um limite. Ninguém consegue passar o dia todo falando coisas interessantíssimas e edificantes. A experiência comum mostra, inclusive, justamente o contrário: os mais sábios tendem a falar muito menos que os mais estultos. Mas se você se obriga a postar algo em intervalos bem curtos, porque essa é sua estratégia de auto-promoção, o “charme” do conteúdo muito provavelmente ficará disperso em uma ou outra postagem interessante aqui e ali. Meu chute baseado absolutamente em porcaria nenhuma além da minha intuição diz que pelo menos em 50% do tempo você estará postando algo que não é muito melhor do que o conteúdo que rola nos grupos de WhatsApp da famíla. ![Ricardo Amorim post](/files/50) E nos 50% dos outros 50%, estará postando nada muito melhor do que outros colegas de profissão estão também postando. Acho que já mencionei em outro post a loja de calçados que tem por aqui. Ela não fica sempre aberta e, no geral, tem ótimos preço e bons calçados. Assim, nas (poucas) ocasiões em que abre, causa uma comoção na mulherada à minha volta. Houve uma época em que a Flávia Gamonar era mais ou menos assim. Postava com regularidade quase “baixa”, mas a qualidade dos textos era muito alta. (Depois entrou na onda de ser “influencer” e eu a bloqueei também.) É claro que temos que considerar que as pessoas são assim mesmo e que não há nada de errado em compartilhar algo meramente porque achou bonito ou engraçado. Nada mais normal e corriqueiro. O problema é que a estratégia de “fazer bombar” a própria imagem acaba transformando o “influencer” em nada mais do que isso: um profissional. E as coisas pessoais vão se diluindo na “estratégia”, já que “cada postagem conta”, seja algo bobo, seja algo sério, seja do economista, seja do açougueiro. Postar por postar, porque a estratégia é postar: postar muito, postar sempre. Se pararmos para pensar, isso leva qualquer um a um limiar bizarro em que, de um lado, está o “não me importo, é só um trabalho” e, do outro, o “sou um fanático por atenção”. Se você profissionaliza a coisa toda, é frio. Se leva tudo para o lado pessoal, tem problemas mentais/sociais. E há ali no meio algo que provavelmente é o robô com problemas sociais, ainda… ### 3- Comercial repetido, não O Plantão Sabe algo que causa comoção e prende a atenção ainda hoje? O “Plantão da Globo”. É começar a música da vinheta que todo mundo para o que estiver fazendo para saber se o Sílvio Santos morreu ou aconteceu alguma outra tragédia. Quem entra na “estratégia” deixa de ser Plantão e passa a ser comercial repetido, aquele que está em todos os blocos de comercial da TV, em todos os canais, o dia inteiro. Sempre o mesmo, sempre lá. ## O Ricardo Mas esse artigo absolutamente não é uma crítica ao Ricardo Amorim especificamente. Como disse, admiro seu trabalho e dedicação nessa área, percebo que tem dado muito certo e muita gente gosta muito das suas postagens. Ele não está fazendo nada errado do ponto de vista pragmático. Eu é que fiquei de saco cheio de ver a cara dele todo santo dia. E especialmente porque esse é um padrão de comportamento (ou “estratégia”) que tenho visto repetir-se em vários outros “segmentos”, o que colabora para me deixar ainda mais impaciente. Se você, novamente, parar para pensar um pouco, perceberá que não basta simplesmente “postar sempre, postar muito”: é necessário ter conteúdo. E o conteúdo do Ricardo pode ser bem interessante para você, assim como o é para mais um monte de gente. Não é à toa que ele é “LinkedIn Top Voices Influencers Brasil 2019”, afinal… Dê uma olhada lá nos perfis dele, se quiser: ----- https://www.linkedin.com/in/ricardoamorimricam/ https://twitter.com/Ricamconsult *Ricardo Amorim on about.me* ----- ## O bloqueio Se o conteúdo dele nem é ruim, por que eu vou bloqueá-lo? Porque, como já disse, eu nem sequer o sigo e essa é a única maneira de passar um tempo sem vê-lo. Nos próximos artigos pretendo trazer alguns exemplos parecidos provenientes do “mundo corporativo” e algumas reflexões que creio que são válidas para quem, afinal, é pago justamente para definir “a estratégia”.

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