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O verbo "haver"

Cléber

!["haver"](/files/112) Digamos que aconteça de você, passando em frente a uma obra qualquer, repare que um carpinteiro está tentando serrar um toco de madeira usando o serrote de maneira não convencional: com os dentes do mesmo para cima! Estranho, não? Agora imagine que duas ou três vezes por semana você veja isso em obras diversas por aí. É de se arrancar os cabelos, não? Pois é. É de arrancar os cabelos, mesmo. Agora olhe isso aqui: ![Galileu errando feio o português.png](/files/111) Fico me perguntando como pode ser que pessoas cuja profissão consiste justamente em usar a língua portuguesa em seu propósito mais primordial -- a comunicação -- consigam cometer erros tão absurdos e, especialmente, óbvios. E, como disse antes, não é exclusividade desse caso. Vejo a nossa língua ser assassinada praticamente todo dia e arrisco dizer que em 85% dos casos a maior vítima é justamente o verbo "haver". ## Reencontrado Antes de falar do verbo, quero comentar rapidamente sobre o termo "reencontrado". Dito dessa forma, dá-se a impressão, para quem sabe falar português, que o navio (a) havia se perdido, (b) depois foi encontrado, (c) perdeu-se novamente e (d) então foi, finalmente, **reecontrado**. Esse erro deve-se, provavelmente, a uma certa dose de *antropomorfismo*. É a aplicação errada de um termo que faz sentido entre pessoas mas não o faz entre coisas. Quando acordo e vou tomar um café, geralmente **encontro** minha esposa na cozinha ou outro lugar. É isso que acontece: pessoas se encontram a todo momento. Mas não é comum ou usual dizer o mesmo do meu laptop, por exemplo. Nesse caso, eu precisaria **qualificar** o encontro para que a frase fizesse algum sentido: "*procurei meu laptop e encontrei-o sobre a mesa, onde costuma estar*". Ora, ninguém havia "encontrado" o navio antes de o mesmo ter-se perdido. Por isso não faz sentido tratar da sua descoberta como "reencontro". Se ele desapareceu, o que acontece ao achá-lo é um encontro: "*puxa, finalmente encontramos aquilo que procurávamos!*". Se uma **pessoa** desaparece, aí pode-se usar o termo "reencontro" sem nenhum problema: "*homem reencontra esposa depois de dez anos*". Mas isso tudo não é segredo nenhum: é coisa que se aprende com o uso simples e corriqueiro do idioma. ## Verbo "haver" O verbo "haver" é um tanto excepcional, admito. Ainda há uma porção de gente, por exemplo, que não entende que, em certas situações, esse verbo **simplesmente não tem sujeito**, como quando se diz que "*havia dois homens no local*". "Havia", não "haviam", porque os homens **não são** o sujeito da frase. Mas quando tratamos de questões **temporais**, um pequeno macete que uso é lembrar sempre que, para todos os efeitos, nesses casos, "há" é o mesmo que "tem". * Não vejo um DeLorean voador já tem uns dois anos. * Não vejo um DeLorean voador já há uns dois anos. Ou: * Nos conhecemos há mais de dez anos. * Nos conhecemos tem mais de dez anos. Isso ajuda bastante a não errar. E um dos erros mais comuns, que para mim é o serrote com os dentes para o céu, é **falhar miseravelmente na conjugação verbal**. É até estranho ter que dizer isso para adultos, mas, caso tenham esquecido, **os tempos verbais devem ser coerentes com o que está sendo dito**. Por isso, se o navio está -- tempo presente -- desaparecido tem quase cem anos, então é assim que a frase deve ser dita: "*o navio está desaparecido há quase cem anos*". Agora, se o navio **já não está mais desaparecido** (pois foi *encontrado*, certo?), dizemos que ele **estava** desaparecido. Mas "tem" quanto tempo? **Não tem, oras**! Não tem mais tempo nenhum, porque já não está mais desaparecido! "*O navio **estava** desaparecido **havia** quase cem anos.*" ## "Profissionais" Não é de se lamentar profundamente que os "profissionais da escrita" atuais sejam profundissimamente ignorantes quanto ao uso correto da língua portuguesa? Diversas pessoas explicariam a causa desse problema de diversas maneiras, mas, da minha parte, gostaria de resumir tudo em uma só palavra: **desleixo**. Essas pessoas são profundamente desleixadas. Veja só: eu gosto de palestrar. Logo, acontece que sempre que assisto uma palestra acabo por anotar as coisas boas e ruins a respeito da forma com a palestra foi dada. E, tendo tudo anotado, posteriomente tento aplicar o que aprendi, de forma a tornar as minhas próprias apresentações melhores. Lembro, inclusive, de um caso muito interessante: numa noite de palestras, antes de chegar a minha vez, apareceu um rapaz que participava já havia mais de uma década de um "grupo de usuários" específico aqui da cidade (grupo de usuários de um sistema operacional, não de drogas, que fique claro). Ele mesmo já palestrava tinha muito tempo, inclusive muito, muito mais do que eu. Todavia, sua palestra foi extremamente entediante e repleta de erros básicos que deveriam ter sido eliminados em pouquíssimo tempo e que, no entanto, continuavam presentes e marcantes. Por que isso acontece? Porque ele era um desleixado! Simples assim. Afinal, se parte das suas atribuições é apresentar seu grupo de usuários em palestras, que tivesse aprendido a fazer isso direito! Concluo dizendo que o mesmo conceito se aplica aos profissionais que ganham a vida escrevendo: ora, é o raio da tua profissão, miserável! Tome jeito e aprenda a usar seu idioma nativo! Leia bons livros! Leia bons artigos! Leia e aprenda com os outros! Não é pedir muito, é? Eu, que absolutamente não sou um escritor profissional, sempre estou pesquisando dicionários, sinônimos, antônimos e até rimas, porque não há desculpas para não aprender, especialmente a escrever: você pode ler quantas vezes quiser seu próprio texto antes e até depois de publicá-lo. Erros acontecem? Sim! Mas porque a disposição ao erro é inerente à nossa natureza. Mas, veja bem: estar sujeito a erros **absolutamente não é uma desculpa para a mais escancarada ignorância**!

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