Blog /
Robô velho

Cléber

![robo.jpg](/files/74) *14/04/2019* *Uma pequena crônica* Das coisas que lembro da minha mais antiga infância é uma grande área promocional da Lego™ dentro de um supermercado, que minha memória insiste em dizer que era um “Mercadorama”, embora não confie nela. Eu devia ter uns quatro anos e a experiência foi marcante por dois motivos: a grandeza e a pequenez. A grandeza do lugar me deixou boquiaberto. Quando se é muito pequeno, admito, quase tudo parece muito grande. Mas falo aqui de impressões, não das coisas como realmente eram. Havia uma mesa com ampla base de montar e várias cumbucas cheias de pecinhas — o sonho de qualquer criança. E meio que ao mesmo tempo que eu, outra criança apareceu por lá, com a qual, mesmo sendo extremamente tímido, eu tentei interagir. A pequenez do garoto me deixou boquiaberto. Não que ele fosse muito menor que eu, mas o moleque absolutamente não queria papo e, pelo visto, queria mesmo é que eu sumisse dali para poder brincar sozinho. Fico feliz por isso não ter se tornado algum tipo de ferida para mim. No fim das contas, eu lembro que fiquei foi com pena do menino e, hoje, simplesmente acho graça da situação. O fato importante, mesmo, é que “blocos de montar” sempre chamaram a minha atenção e desde bem cedo eu pedia um conjunto deles para meus pais. Todavia, os anos 90 eram difíceis e esse tipo de brinquedo era um investimento um tanto elevado. Demorou um tempo até eu conseguir meu primeiro conjunto de blocos para montar — que, veja você, não era da Lego™. O que eu ganhei foi um baldinho vermelho com blocos da Atco, da série Space Adventure. O kit, no caso, era para a montagem desse robô que ilustra o artigo. Não lembro ao certo dos detalhes da recepção do presente, mas acho que a leve decepção por ser “uma imitação, e não Lego™” foi logo subjugada pelo fato de o kit ser de um tema que me fascinava: robôs. O que eu lembro com muita clareza foi da experiência de sentar no chão da sala, sobre o tapete bege de pontas pretas que durou ainda muitos anos, junto com minha mãe e minha irmã, à noite, numa das raras ocasiões em que meu pai saía à noite para trabalhar (ele trabalhava “por escala” e, geralmente, trabalhava somente de manhã — longa história, em outro post explico direito). O manual de montagem estava em inglês e em algumas línguas orientais, e nos guiamos apenas pelas figuras que explicavam como montar o robô. Minha mãe mostrou-se bem habilidosa na tarefa e fizemos juntos boa parte do trabalho, incluindo várias discussões (bem técnicas) sobre onde cada peça deveria ser encaixada, geralmente usando a imagem que vinha no próprio balde como referência. Minha irmã também ajudou, mas me parece que ela teve a sensibilidade de me deixar usufruir o momento com meu brinquedo novo, que eu tanto queria (ou simplesmente se interessava muito menos em blocos de montar — a memória humana é falha, você sabe). A primeira versão foi concluída com uma meia dúzia de peças sobrando: sinal de que algo havia saído errado. O manual não era tão completo e fizemos ainda muitas correções. Lembro que a montagem perfeita só veio alguns dias depois. Mas aquela noite foi curiosamente marcante. (Curioso que estou escrevendo esse artigo a menos de dois metros de onde tudo isso aconteceu.) E eu brinquei muito com esse robozinho. Ele foi protagonista de muitas batalhas imaginárias com outros robôs. Alguns, inclusive, montados com muita astúcia usando os blocos de Lego™ que ganhei posteriormente (mas que não eram muito adequados para a construção de robôs). Recentemente o robô, ao qual nunca dei um nome, ganhou um lugar na ponta da minha escrivaninha. Ele certamente precisa de uma limpeza, admito. Mas a poeira acumulada, somada a outras marcas, dá a ele uma característica que só recentemente na minha curta vida eu tenho começado a enxergar como uma qualidade digna de apreciação: ele é velho. Originalmente havia quatro mísseis vermelhos (hoje restaram apenas dois), oito daquelas peças redondas e cinzas na “barriga” e o “vidro” da cabeça rachou-se razoavelmente cedo na história desse brinquedo. E se isso antigamente me deixava meio triste, hoje me faz olhá-lo com uma espécie de respeito. Vejo ali uma espécie de certificado de experiência e, ao mesmo tempo, uma espécie de prenúncio do que eu mesmo estou me tornando: uma face com rugas, um corpo com alguns machucados, um coração meio cortado, um espírito com as marcas do tempo. Eu não entendia muito da velhice quando era mais jovem. Sempre respeitei os mais velhos, mas nunca o fiz com aquele conhecimento que advém da empatia. Se eu fosse uma criança e visse esse mesmo robô velho, eu provavelmente iria achar o máximo, mas desejaria um novo. Não haveria empatia alguma, porque, no fim das contas, esse é o meu robô velho, com o qual eu brinquei e cujas peças eu vi se perderem e cujo vidro eu vi rachar-se e eu tentei remendar com fita adesiva transparente. Hoje eu posso ver um robô meio judiado na ponta da escrivaninha de alguém e perceber o significado que ele pode ter muito além das marcas do tempo impressas em sua carcaça. E é mais ou menos isso que ficar velho vai fazendo conosco. Aqueles velhinhos bem enrugados que antes eram criaturas meio alienígenas e com as quais não tínhamos muito em comum além de habitarmos a mesma terra começam a nos parecer mais próximos e mais humanos e, finalmente, podemos perceber a verdade tão óbvia mas tão relegada à ignorância coletiva de que o tiozão careca é simplesmente o jovem cabeludo que perdeu seus cabelos e que a senhorinha cheia de rugas é a jovem bem hidratada que simplesmente ficou velha mas são, em essência, exatamente as mesmas pessoas. Parece bobo, mas não acredito que seja comum entre os jovens a percepção dessas verdades tão difíceis de se expressar em palavras. E o robô está aqui do meu lado, parado, aguardando ainda algum tempo até completar 30 anos sempre por perto e, mesmo sem palavras, manifesta, com poeira e arranhões, uma verdade implacável e, certamente, admirável.

Curti

67 visitantes curtiram esse Item.

Anterior: 10 resoluções para o ano de 2020 | Próximo: Jordan Peterson: "se você quer ser melhor"