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10 resoluções para o ano de 2020

Cléber

![fogos.jpg](/files/56) Meu entendimento a respeito da questão da virada de ano já foi diferente do que é hoje e por algum tempo eu achava uma bobagem considerar que houvesse qualquer coisa diferente ou especial nessa época do ano. Que jovem burro eu era. Hoje vejo que é salutar termos momentos em que, periodicamente, somos instados a refletir a respeito de como temos levado a vida e verificarmos, se assim for possível, se nosso coração está no lugar devido. Tal coisa se averígua descobrindo, primeiramente, onde está o nosso tesouro — no que gastamos mais tempo, com o que nos preocupamos, o que ocupa nossas mentes, com que nos alegramos e o que é capaz de abalar nossa serenidade. Para mim, 2019 foi um ano bem longo no qual culminaram, finalmente, certas consequências de coisas que eu sabia que eram necessárias mas que, por pura inércia, acabava deixando para depois. E, se há algum valor em analisar esse ano em retrospecto, talvez o resultado seja justamente que eu estabeleça certos objetivos para o próximo visando não cometer os mesmos erros ou deixar-me levar pelos mesmos vícios, para que eu possa cumprir, assim, o fim supremo e principal do homem. Mas qual é o fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. ## 1- Estabelecer a devida prioridade das coisas Se fosse colocar em ordem de prioridade aquilo que é mais importante na vida de um homem, aquilo de que se deve zelar ao máximo e que é bom e próprio que seja devidamente cuidado para o bem de seu espírito, alma e corpo, eu diria que a lista certamente começaria assim: * Deus * Família * Nação * Trabalho Tem dois anos eu pretendia escrever um artigo “aos 32 anos descobri que sou burro”, contando como, afinal, eu havia perdido a prática da leitura de bons livros e me tornando alguém cheio de opiniões mas com pouquíssimo fundamento para as mesmas ou, pelo menos, sem a devida capacidade de articular bem as ideias. Faço uso de uma porção de ferramentas, mas não sou capaz de determinar suas origens ou, para fins práticos, sua validade. Apelo constantemente à lógica, por exemplo, mas teria alguma dificuldade em argumentar por que, afinal, a lógica é uma ferramenta que devemos usar e pela qual devemos prezar. Talvez eu devesse estudar Filosofia direito. E tem um ano que pretendo escrever outro artigo: “aos 33 anos descobri que sou ainda mais burro do que pensava”. Pois se antes eu admirava a Filosofia, passei a perceber que ela sozinha não tinha, de forma alguma, qualquer poder redentor e que, mesmo que um homem fosse livre (no sentido clássico, como quem domina as artes liberais), ainda assim sua vontade seria escrava (Rm 8:6) e, libertas as amarras da alma, o espírito decaído e enfermo estragaria toda a obra libertadora, transformando-a, inevitavelmente, em libertinagem desabrida ou numa santarrona e velada soberba. O que devo estudar, mesmo, é Teologia, pois é a rainha das ciências — a Filosofia, sua serva. E hoje, em contato com tantas pessoas tão mais inteligentes do que eu mas, ao mesmo tempo, tão ignorantes sobre tantas coisas cruciais, tenho percebido que mesmo esse corpo de conhecimento que chamamos de Teologia é uma casa construída na areia se não for firmada sobre um fundamento sólido, que consiste, para surpresa de alguns e escândalo de muitos, num conceito simples: conhecer a Palavra de Deus e cumpri-la (Mt 7:26 e Tg 1:22). E, exceto o próprio Deus, o que poderia, nessa vida, ser mais importante que minha família? Absolutamente nada. Tudo o mais pode ser preterido. O trabalho, por sua vez, não deve atrapalhar meu relacionamento com Deus, deve servir à minha família e não pode lesar minha nação. Estou certo que farei bem se buscar respeitar, na mente e no coração, tais prioridades. ## 2- Voltar a estudar a Bíblia seriamente Estabelecidas as prioridades, eis o primeiro e mais importante passo a ser dado. Quão facilmente permitimos que nossos corações sejam tomados pelos espinhos? Os cuidados desse mundo, os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a Palavra, e esta fica infrutífera (Mc 4:18,19). É, pois, absolutamente necessário e vital que se leia, estude e compreenda a Palavra de Deus, que é a Bíblia Sagrada. Tenho negligenciado isso já tem algum tempo e não posso permitir que as coisas continuem assim. ## 3- Valorizar devidamente as afeições espirituais Não tenho capacidade de discorrer sobre isso adequadamente e recomendo a leitura da obra “Afeições Religiosas” de Jonathan Edwards. Para mim mesmo, de maneira prática, esse item consiste em, mesmo permitindo-me apreciar a música secular (eu ainda quero conhecer melhor alguns músicos brasileiros, como Brasílio Itiberê), manter bem claro em minha mente que não há movimento da alma que não afete também o espírito. Se me for dado escolher, afinal, o que prefiro cantarolar ou assobiar quando estiver distraído em algum afazer, ao invés de “gimme fuel, gimme fire, gimme that which I desire”, que seja “quão grande és Tu, quão grande és Tu”. Ademais, percebo que a oposição ao emocionalismo gratuito, ao longo dos anos, acabou me endurecendo com relação a qualquer tipo de evocação à emoção em geral, coisa que não é correta. É certo que a emoção deve originar-se, necessariamente, do conhecimento, mas é um erro imaginar que o efeito da música seja errado em si, pois assim como é direito do que prega a Palavra exigir uma atitude séria ou instar os ouvintes a abrirem, conforme lhes seja possível, seus corações, não há problema algum em acompanhar uma mensagem de alegria com uma melodia alegre ou uma mensagem que convoca ao arrependimento dos pecados com uma melodia mais grave e soturna. ## 4- Tomar atitude em relação ao que me incomoda É impossível negar que eu seja aficionado por rotina. Coisas que a quebram causam-me agitação, tumulto e confusão e acabo reagindo a isso de maneiras não recomendáveis: ora com falta de iniciativa e prontidão, ora com miserável mau-humor. Um bom exemplo é a compra de presentes. Não que eu não aprecie presentar as pessoas, mas como é uma quebra de rotina, meu organismo reage quase que por instinto e abomina a ideia de ter que “sair do script diário” por isso (o mesmo se aplica a coisas relacionadas a bancos e cartórios). Mas não há para onde fugir: nossas vidas não podem ser planejadas minuciosamente. Entretanto, constantemente me vejo sofrendo por conta dessas coisas inevitáveis, seja comprar um presente, seja ir ali na padaria comprar 10 pães (sim, eu sou bem apegado a rotina). E, até agora, não tenho feito nada para mudar isso. Sobre comprar presentes, penso em tornar isso um hábito: mesmo em meses que não preciso fazê-lo, talvez seja interessante dedicar um dia para parar o que quer que eu esteja fazendo e simplesmente sair de casa e comprar (ou criar) alguma coisa para alguém. Se é de rotina que eu preciso, incorporarei tais coisas à minha própria. (Também preciso de grandes armários na minha casa. Comprá-los-ei.) O resumo desse ponto é que preciso parar de ir deixando as coisas como que à deriva e tomar as devidas atitudes para mudar o que me for possível. ## 5- Ser menos psicopata Preciso ser mais empático com as pessoas, buscar entender e valorizar mais o que elas sentem e deixar de ser esse egoísta imbecil que eu sou. Há uma porção de pessoas à minha volta que me amam ou apreciam a minha pessoa (e é de forma humilde que digo isso) e que não precisam nem exigem que eu seja menos pobre do que sou hoje, mas tão-somente que eu pare um pouco e lhes dê alguma atenção, que comungue um pouco com eles, não porque eu tenha qualquer coisa a lhes acrescentar, mas simplesmente porque nossas vidas são curtas e, no fim, quando o véu das vicissitudes e distrações da vida é baixado e conseguimos ver a vida com alguma clareza, percebemos que as coisas que realmente tem algum valor são primeiramente o próprio Deus e, logo em seguida, as pessoas que amamos. Nos últimos instantes da vida, se nos for dado tempo que baste para refletir sobre isso, vamos pensar menos em quantos livros lemos e mais em quanto tempo passamos com quem amamos e com quem nos amava. ## 6- Trabalhar menos Passei por alguns momentos de tanta correria trabalhística em 2019 que em determinado dia em que não havia trabalho algum a ser feito eu me senti absolutamente perdido, como se o que preenche-se o meu próprio ser fosse, de alguma forma, o estar ocupado com alguma tarefa urgente. E isso é preocupante. Nesses últimos dias, porém, tenho estado mais tranquilo. Esse item envolve um pouco de tudo o que já foi dito. Por exemplo: eu preciso tomar uma atitude com relação às coisas que me incomodam. Num dos meus trabalhos, acontecia que a maioria das notificações do Discord (que é um aplicativo de mensagens instantâneas) eram para reportar algum problema que eu precisava corrigir, geralmente o mais rápido possível. Resultado: a campainha sonora de “nova mensagem” se tornou, para mim, o gatilho do estresse. Era ouvi-la e sentir as entranhas da alma se revirando em desespero. Não é o caso, obviamente, de largar mão de tudo, displicentemente, e “os outros que se virem sem mim”. Mas é o tipo de coisa que não pode continuar por muito tempo. Menos mal que já estou me desvencilhando de tal projeto, pois uma das coisas que mais quero nessa vida é, sempre que possível e viável, sossego. Ademais, o desejo de sanar logo algumas pendências financeiras e conseguir comprar logo um carro (perdi o meu num acidente, esse ano) me fez correr feito um louco atrás de trabalhos, mas agora percebo que, se continuasse por esse caminho, não duraria o suficiente para ver os frutos. Sei bem que, de quando em quando, temos que fazer algumas coisas com urgência. O mercado é assim mesmo, e uma correria ou outra não é necessariamente sinal de que determinada empresa é um lugar ruim para se trabalhar. Entretanto, estar constantemente no sufoco, tal qual um cão correndo atrás do próprio rabo, é sinal claro de que algo está errado. E é exatamente disso que quero passar bem longe nesse próximo ano. ## 7- Ler mais livros Minha fila de livros é imensa, só tem crescido e ando com vontade de reler alguns. Então devo focar mais nisso, que é algo que me dá proveito mais duradouro, ao invés de ficar imerso no “tititi” do quotidiano. É saudável saber o que anda acontecendo no mundo, mas pouco valor pode ser extraído disso se a mente não tem uma estrutura adequada para apreender e julgar tudo devidamente e, se for o caso, se expressar adequadamente a respeito. ## 8- Abrandar minha comunicação Tenho uma dificuldade imensa em me expressar de maneira branda, ao ponto de que é bem comum as pessoas ficarem com medo de mim, receosas de falar comigo. (Eu inclusive acho que tenho algum problema de dicção, especialmente com relação à cadência das palavras, de forma que é fácil interpretar algo neutro que eu diga como uma reclamação rançosa ou algo assim.) (E, no geral, eu sou meio grosso, mesmo… admito.) Ademais, a natureza do meu trabalho faz com que constantemente eu me comunique com os outros via texto, então qualquer impressão que pessoalmente eu tenha transmitido passa a ecoar infindavelmente por tudo o que eu venha a escrever. Então, ao invés de passar a vida dando murro em ponta de faca, é melhor tomar atitudes com relação a isso. Parece algo muito negativo o que vou dizer, mas percebo que o que mais acontece é que as pessoas confundem desprezo com raiva. “Desprezo” não no sentido pejorativo, mas no sentido de realmente não se importar, de ser absolutamente neutro. O que para mim é “tranquilo: tanto faz” acaba soando para os outros como “que saco, isso, hein?”. Talvez minha predileção pela concisão acabe causando um efeito negativo, ao ponto de, na verdade, faltarem palavras no diálogo, deixando oportunidades demais para a livre interpretação alheia dos meus humores. E como minha cara não é das mais belas, a interpretação geralmente segue caminhos sombrios. Enfim, ainda não tenho um plano bem definido quanto a esse item, mas acho válido manter isso como um ponto a ser observado. (E também não é como se eu tivesse ignorado isso até agora. Muito pelo contrário: há tempos tenho ouvido feedback e tentado melhorar — com bom grau de sucesso, eu diria. Mas perfeito a gente nunca é, e da minha parte parece melhor admitir as dificuldades e buscar melhorar do que fingir que elas não existem.) ## 9- Aprender latim Gosto de comparar a Cultura com uma grande biblioteca. Se você consegue ler em português, você tem 5 grandes estantes que pode consumir sem problemas. Se consegue ler em inglês, ganha acesso a todos os livros de mais 500 estantes. Se consegue ler em latim, mais 1500. Por isso eu gosto de estudar as línguas clássicas (mesmo que a minha definição de “línguas clássicas” possa diferir, eventualmente, de outras): hebraico, grego, latim, francês e inglês. (Gostaria de adicionar, eventualmente, o alemão à lista.) Mas, para 2020, me parece sábio focar em latim. O motivo: aprender latim ajuda muito a entender Gramática — alguns diriam, inclusive, que latim é uma forma de Gramática em si. A ideia não é tanto “ler mais” ao aprender esses outros idiomas (como se a ampliação da oportunidade de leitura necessariamente provocasse o aumento do ato de ler em si), mas especialmente conseguir ler as obras clássicas no idioma em que foram escritas. ## 10- Focar e persistir em um projeto pessoal por vez Vira e mexe eu acabo tendo uma ideia magnífica de software que há de mudar o mundo ou facilitar grandemente minha vida. E não é que seja o caso de eu começar coisas e não terminar. Independente de terminar um projeto ou não, olhando em retrospecto, cada um deles me trouxe algum aprendizado, o que é positivo. Ocorre que chegou a hora de ir juntando as peças de tudo o que fui construindo com o passar do tempo e começar a criar algo um pouco mais ambicioso e, provavelmente, duradouro. E, para isso, preciso seguir com paciência e disciplina uma série de passos — que envolvem, inclusive, dominar uma nova linguagem de programação. ## Resumo 2019 foi um ano longo e razoavelmente turbulento. E me deixou bem cansado. Deus o permitindo, quero que 2020 seja um ano de mais sossego e que eu consiga priorizar, na minha vida, as coisas que merecem prioridade.

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