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Análise do livro Heart of Darkness

Cléber

* Date: 2018-11-03 14:52:17 Fiquei sabendo a respeito da existência desse livro quando li o poema "The Hollow Man", de T. S. Elliot, que tem como "prefácio" um pequenino trecho do livro: ``` Mistah Kurtz -- he dead ``` Afinal, quem seria esse tal "Mistah Kurtz"? # O cenário e a época O livro foi publicado em **1899**. Conrad começou a escrevê-lo oito anos depois de voltar da África, o mesmo cenário em que o livro foi escrito, e Marlow, o protagonista, é descrito como tendo experiências muito semelhantes àquelas que o próprio Conrad teve: ele chegou a comandar um navio a vapor pelos rios do Congo durante viagem em que o capitão acabou ficando doente. O Congo, para quem não sabe, fica bem no centro do continente africano e foi um dos últimos lugares a serem explorados pelos europeus. ## Conferência de Berlim Entre 1884 e 1885 ocorreu a Conferência de Berlim, também conhecida como Conferência do Congo ou Conferência da África Ocidental, na qual as potências europeias regulamentaram a colonização e comércio na África. Organizada por Portugal, acabou liderada pelo próprio Bismarck. Na prática, o que se estabeleceu nessa conferência foi a partilha do continente africano pelos europeus. ## Escravidão Entre as cláusulas, havia um compromisso para acabar com a escravidão por parte das potências africanas e muçulmanas. **Leia e entenda**: não estamos falando de "*acabar com a escravidão que os europeus promoviam*", mas sim de eliminar esse costume milenar que já estava encrustado no coração das nações africanas. **Eles** escravizavam e, eventualmente, vendiam alguns escravos para os europeus. O propósito desse compromisso era fazer com que os próprios africanos parassem de se escravizar uns aos outros. Provavelmente por isso Conrad faça uma referência jocosa a essa Conferência como a "Sociedade Internacional para Supressão de Costumes Selvagens". Repare na ironia. Por isso eu discordo de quem considera que o livro teça qualquer crítica à escravidão. Da parte do próprio Conrad, até onde eu consigo ver pelo livro e por essa ironia, ele considera a escravidão entre os próprios povos africanos (uma tribo conquistando e escravizando outra tribo) como algo normal, e a tentativa dos europeus de interferir nisso é que é vista como algo questionável. ## Imperialismo Durante a leitura do livro, também não consegui notar críticas ao "imperialismo europeu". Conrad apresenta, sim, as expedições da companhia como algo bem mundano e nada nobre, com objetivo claro de simplesmente lucrar. Entretanto, não se vê nenhum esforço em apresentar o nativo africano como "um espírito nobre" que sofre sob o poder de fogo europeu. Há algum sofrimento sendo exibido aqui e ali, mas nada que possa ser trazido à tona como uma "crítica". Muito pelo contrário: a impressão que tive foi que, novamente, para Conrad, há uma certa naturalidade na coisa toda, uma vez que a escravidão e a guerra eram elementos naturais entre as tribos africanas. A diferença, agora, era que havia gente branca envolvida. # Personagens Marlow é um marinheiro experiente que conta como foi uma viagem que fez Congo adentro e, mais especificamente, como conheceu o "senhor Kurtz", figura pitoresca e fascinante pela qual Marlow acaba ficando, de certa forma, obcecado. Kurtz, por sua vez, é um explorador admirado por todos e odiado por alguns. É conhecido por alguns feitos extraordinários e pela sua oratória impecável, aliada a uma voz grave e imponente, ao mesmo tempo que sua estatura é bem pequena, ao ponto de Marlow fazer um paralelo com o próprio nome Kurtz, que seria "curto" em alemão. Em torno de ambos, a selva, que é o personagem com quem o coração do Kurtz é colocado como uma espécie de representação. Ela é ubíqua e silenciosa, mas ao mesmo tempo evidentemente presente e aparenta estar sempre observado o que acontece placidamente, com a tranquilidade que algum tipo de divindade eterna teria ao observar as atividades dos pequenos homenzinhos que se arriscam a meter-se no meio dela. # Paralelos "Coração das Trevas" é uma referência à selva africana e tem como paralelo, a meu ver, "as trevas do coração", especialmente do coração do senhor Kurtz. Eu, particularmente, entendi que o objetivo do livro é mais ser um estudo das profundezas do coração do que das idiossincrasias da sociedade. Kurtz é como a selva: quando você ouve alguém falando a respeito, fica impressionado e pensa "deve ser magnífico". Entretanto, conforme vai-se embrenhando pelos rios e chegando-se ao cerne, percebe-se a escuridão profunda que habita ali. Ao mesmo tempo, contrastes são apresentados: Kurtz tem uma existência curta, enquanto a selva representa um tipo de eternidade. Kurtz é enérgico e cheio de ações, enquanto a selva repousa em observação, inclusive porque Kurtz ocupa um espaço por vez enquanto a selva está à volta de todos, em todos os lugares. O ponto de convergência, talvez, seja que Kurtz é uma espécie de selva condensada: toda a força dela, que age mui gradativamente, precisa ser gasta em pouquíssimo tempo pelo senhor Kurtz. Sua onipresença e onisciência traduzem-se no desejo de conquistar e dominar. É como se o infinito estivesse dentro do coração do senhor Kurtz, um homem finito. E se Marlow, por sua vez, acaba por não conseguir tirar de sua mente a pessoa de Kurtz, Kurtz não conseguia tirar de sua própria mente a selva africana. **Talvez** o relato da noiva de Kurtz, no final, traga algum tipo de analogia com relação à obsessão do homem branco com o continente africano. Mas o propósito é incerto. No final, a coisa toda parece acabar envelopada num ar de transcendência. Marlow contempla uma alma pura apaixonada por um homem que terminou a vida insano pelo poder e riquezas e decide não "contaminá-la" com o conhecimento desse fato. Mesmo isso me parece menos uma tentativa de "crítica social" e mais uma leve pincelada sobre o interior do homem, especialmente de Marlow, que acaba tendo em mãos uma importante decisão a fazer sobre o legado do senhor Kurtz. # Resumo É um livro bem escrito que segue em bom ritmo até o final. Algumas partes são confusas, especialmente porque é a história de alguém contando uma história. Marlow às vezes inverte algumas coisas da ordem cronológica quando tem comentários a fazer sobre sua experiência, especialmente no fim do "segundo ato", quando discorre sobre a morte de Kurtz, antes mesmo de terminar de contar a história sobre como, de fato, o conheceu. Recomendo a leitura, especialmente como uma forma de enxergar pelos olhos de uma pessoa da época como era o mundo no final do século XIX.

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