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A arte de ir embora em silêncio

Cléber

![ir embora](/files/29) * Date: 2017-04-23 * Modified: 2018-11-29 16:35:00 ## Ou: a dificuldade de detectar-se reclamações silenciosas Com o passar dos anos, tenho desenvolvido essa habilidade de sair sem falar nada. Seja de um restaurante ou de um grupo no Facebook, quanto mais o tempo passa mais eu me liberto daquela sensação de dívida, como se eu tivesse que explicar para alguém o motivo de eu estar caindo fora. Sentei na mesa do restaurante e não apareceu nenhum garçom por algum tempo? Levanto e vou embora. Postaram uma foto indecente no grupo do Facebook dos crentes calvinistas sob qualquer pretexto? “Sair do grupo / impedir que me adicionem de volta”. Dei minha opinião numa postagem e agora querem começar uma discussão? Nem respondo ninguém: “deixar de seguir esta publicação”. O grupo de Telegram de algum assunto técnico é “floodado” pela “piazada” dando “daê galera” e coisas absolutamente desinteressantes para terceiros? “/leave” e nunca mais apareço por lá. Eu sei que isso pode não ser muito construtivo. Afinal, minha desaprovação silenciosa é muito, muito difícil de ser percebida e passa longe de servir como gatilho para discussões mais profundas ou para sugerir-se mudanças. Eu sei. Mas, sinceramente, não ligo muito. Não devo nada a ninguém. Como diz o ditado: “vem fácil, vai fácil”. Também evito dar opinião sobre as coisas que as pessoas dizem. Não sou o pai de ninguém, tampouco a verdade deixa de ser verdadeira, ou a lógica deixa de ser correta, se eu não estiver lá para defendê-las. A verdade e a lógica não dependem de mim. É complicado discutir com a maioria das pessoas. O cidadão comum não está acostumado ao processo de desenvolvimento racional de uma ideia. A maioria das ideias que as pessoas tem é puro preconceito: ela ouve uma frase solta aqui e outra frase solta acolá e vai guardando-as no cérebro, sem ter muita noção de que elas estão lá, até chegar o momento mágico em que N frases soltas se unem (sendo que nenhuma delas passou pelo devido escrutínio) e formam uma nova crença, uma nova convicção em uma baboseira qualquer. E então ele torna-se, novamente de forma praticamente não-assistida, um defensor daquele ideal, com pouco vigor ou interesse no dia-a-dia, mas com coragem hercúlea no exato momento em que é confrontado por… mim. O cidadão nunca parou para realmente analisar aquela noção que ele tem a respeito de determinado assunto, mas agora que eu ousei dizer que ele pode estar errado, a força de dez tigres o assistem na defesa desta nova obviedade universal. Então, já estando velho e tendo aprendido a não “dar murro em ponta de faca”, eu simplesmente deixo pra lá. ``` Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas. Não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem. — Jesus Cristo (Mateus 7:6) ``` ## Esperança Curiosamente, minha própria atitude me leva a pensar em algo que me traz uma certa esperança: será que as pessoas que pensam como eu também não estão em silêncio? Ou seja: ao invés de esmaecer perante a algazarra dos paladinos da “justiça” e cavaleiros defensores da “verdade”, talvez seja interessante pensar nos homens e mulheres que conseguiriam, juntos, engrenar uma discussão saudável, abandonando noções sem sentido e aperfeiçoando as ideias corretas, e que estão simplesmente calados. Qual seria a proporção? Uma pessoa razoável para cada cem adolescentes com megafones? Uma a cada dez? Ou talvez haja uma maioria escondida, cuja proporção não temos como calcular? É difícil saber. Mas estou convicto de que estas pessoas estão lá, ouvindo e lendo os esbravejos insanos dos defensores-das-ideias-nunca-realmente-analisadas e simplesmente dando as costas, em silêncio, invisíveis às estatísticas comuns. ``` Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele, e depois vence-te em experiência. — Mark Twain ``` ## Preocupação Mas e se eu mesmo ou meu trabalho for alvo de críticas e desaprovações silenciosas? É difícil alguém escrever-te “nossa, cara, como você é babaca. Estou parando de te seguir nesta rede social” ou dizer “olha, não quero mais contato com você”. São perdas do pior tipo possível: sem feedback algum. Penso nisso toda vez que assisto “Kitchen's Nightmare”/”Pesadelo na Cozinha”. O cozinheiro ou dono do restaurante (que costuma estar à beira da falência) jura de pé junto que sua comida é boa e que o serviço é excelente. Repetidamente ouve-se de algum destes “personagens”: “nunca ninguém reclamou”. É, amigo, ninguém reclamou. Todavia foram todos embora. Ninguém reclama, mas o restaurante sobrevive às custas dos desavisados clientes-pela-primeira-vez. ``` É bom quando o cliente que reclama. Porque há o que nunca fala nada, mas não demora muito e ele simplesmente vai embora. —um antigo chefe ``` ## Vendo o invisível Eu realmente gostaria de incluir um tópico entitulado “como detectar a crítica silenciosa”, mas não faço ideia, no momento, de como fazê-lo. Pelo menos não na vida pessoal. Seria bem estranho mandar uma pesquisa NPS para o círculo de amigos, não? Logo, não falarei sobre isso agora. Mas entender que há números muito difíceis de serem precisados pode tornar-se uma vantagem estratégica. O “relaxe: ninguém está reclamando” acaba tornando-se um “cuidado: ninguém está reclamando”. E, pelo menos, ao sermos confrontados com um mar de baboseiras, podemos ter esperança de haver uma multidão silenciosa que simplesmente abstém-se de opinar por não haver bom solo para plantar a semente da razão. Quem sabe? ``` O que possui o conhecimento guarda as suas palavras, e o homem de entendimento é de precioso espírito. Até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio; e o que cerra os seus lábios é tido por entendido. — Provérbios 17:27,28 ```

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